A América Latina e o controle do desperdício de alimentos

Dilceu Sperafico*

Merece nossos aplausos a iniciativa de governantes e lideranças da América Latina, de buscar acordo de abrangência continental, destinado a combater e reduzir o desperdício de alimentos.

O objetivo da mobilização é frear o lamentável hábito da população de jogar frutas, hortaliças e restos de pratos elaborados no lixo, sob as mais diferentes alegações.

Para isso, a meta é aprovar código de conduta, unificando critérios para controlar e diminuir as perdas da indústria alimentícia e do preparo e consumo de alimentos, em restaurantes, espaços públicos e residências.

Conforme levantamento da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), nos países latino-americanos o desperdício atinge 30% do total da produção de alimentos e são necessárias atitudes conjuntas e urgentes, para deter esse fato tão nocivo para toda a sociedade.

Com a medida, a coordenação regional de sistemas alimentares da instituição espera contribuir para a redução do descontrole global que dificulta a adoção de mecanismos para diminuir a perda de alimentos, em quantidade suficiente para ajudar muito no desafio de erradicar a fome no mundo.

Para avançar nesse propósito na América Latina, o Comitê de Segurança Alimentar Mundial da FAO, planeja lançar em julho código internacional de conduta, com o objetivo de harmonizar critérios e apontar tarefas e responsabilidades do Estado, empresas, distribuidores, produtores e até mesmo consumidores, visando a definição de normas efetivas pelos países participantes.

A decisão foi anunciada em reunião de especialistas de vários países, realizada recentemente em Santiago, no Chile, para o terceiro diálogo regional sobre prevenção e redução de desperdício de alimentos, voltado, inclusive, à capacitação de parlamentares responsáveis pela elaboração de legislação sobre a problemática em seus respectivos países.

Pesquisadores participantes do evento destacaram que atualmente na América Latina se perde e/ou desperdiça somente na venda de alimentos à população, volume maior do que o necessário para alimentar todas as pessoas que passam fome no continente, cerca de 36 milhões de habitantes.

Na América Latina, segundo dados revelados no encontro, se perdem 127 milhões de toneladas de alimentos por ano, quantidade que deveria ser reduzida à metade até 2030, para que sejam cumpridos objetivos de desenvolvimento sustentável do planeta.

O controle e redução gradativa do desperdício de alimentos, na verdade, é tema do interesse de toda a população, especialmente de regiões produtoras e exportadoras, como o Oeste, Noroeste e Sudoeste do Paraná.

Isso porque as perdas de alimentos penalizam todos os segmentos econômicos e sociais da sociedade, desde os agricultores até os cidadãos urbanos, passando por cooperativas e empresas agropecuárias, agroindústrias e comerciantes.

Quando hortaliças, frutas, grãos, carnes ou produtos elaborados, são jogados fora, não perdem apenas os compradores que usaram dinheiro para concretizar a aquisição, mas também as pessoas carentes que dependem da solidariedade de semelhantes para reduzir a fome e a desnutrição.

O mesmo ocorre com produtores rurais que investem no cultivo da terra e criação de animais, indústrias que beneficiam produtos primários,  distribuidores e comerciantes do setor, o poder público que arrecada tributos na cadeia produtiva, a geração de empregos e, em conseqüência, o bem-estar de todas as pessoas.

*O autor é deputado federal pelo Paraná e integrante da Frente Parlamentar da Agropecuária